Enquanto o Vale da Celulose se consolida como uma das maiores engrenagens econômicas de Mato Grosso do Sul, a Eldorado decidiu pisar fundo.
A empresa prepara um salto estratégico que começa longe das chaminés industriais: no campo. A partir deste ano, a área plantada com eucalipto deve praticamente dobrar, alcançando até 50 mil hectares, em um movimento que antecipa o futuro antes mesmo de ele chegar à fábrica.
A lógica é simples — e implacável. Árvores não obedecem ao calendário político nem à pressa do mercado. Levam cerca de sete anos para crescer. Já uma fábrica pode ser erguida em menos da metade desse tempo. É por isso que, mesmo sem anunciar oficialmente uma ampliação industrial, a Eldorado está preparando o terreno agora, folha por folha.

Hoje, a unidade inaugurada em 2012 já opera além do que estava previsto no projeto original. São 1,8 milhão de toneladas anuais de celulose, resultado não de expansão física, mas de ganhos silenciosos: eficiência operacional, tecnologia embarcada e manejo florestal mais inteligente. Em outras palavras, a fábrica aprendeu a produzir mais com o que já tem.
Nos bastidores desse avanço está uma operação florestal de grandes proporções. A empresa colhe, em média, 25 mil hectares por ano e administra cerca de 300 mil hectares em Mato Grosso do Sul. O perfil das propriedades também mudou: se antes predominavam áreas menores, agora surgem fazendas com milhares de hectares, reflexo da consolidação da silvicultura como alternativa mais rentável que a pecuária tradicional.
Um exemplo simbólico dessa virada está em Brasilândia, onde uma única propriedade reúne cerca de 3 mil hectares de eucalipto. O cenário atual contrasta com o início da operação no Estado, quando o setor ainda enfrentava desconfiança. Hoje, a conta fecha — e sobra. O arrendamento florestal oferece retornos médios acima de 6% ao ano, superando com folga culturas agrícolas e a pecuária extensiva.
Mesmo com a chegada de novos players ao Estado, a Eldorado segue encontrando espaço para crescer. A baixa densidade populacional e a conversão gradual de pastagens em florestas comerciais criam uma espécie de “fronteira verde” ainda aberta. Prova disso é que a empresa já garantiu boa parte das áreas necessárias para o novo ciclo de plantio que começa em breve.

Mas plantar não é apenas ocupar terra: é também ciência
No centro dessa engrenagem está o Eldtech, laboratório onde a Eldorado desenvolve a genética que sustenta sua floresta. Ali, pesquisadores cruzam décadas de dados para criar árvores mais produtivas, resistentes à seca e perfeitamente adaptadas ao solo sul-mato-grossense. Cada novo clone leva, em média, mais de uma década até ser aprovado — um processo minucioso que envolve testes de campo, avaliações industriais e acompanhamento contínuo.
Nada de transgênicos ou edição genética. As regras de certificação ambiental impõem limites claros. Ainda assim, a biotecnologia avança dentro desses parâmetros, acelerando ciclos e refinando resultados. As mudas selecionadas seguem para viveiros de alta escala, onde milhões de brotos são preparados antes de seguir para o campo.

Nos primeiros meses, o cuidado é intensivo. Depois, a floresta entra em modo de vigilância permanente, com controle integrado de pragas e uso crescente de defensivos biológicos desenvolvidos internamente. Sete anos depois, a engrenagem se fecha: começa a colheita, totalmente mecanizada, operando todos os dias do ano.
Da floresta, a madeira segue para a fábrica, onde passa por um processo industrial altamente integrado. Parte vira celulose. Outra parte, energia. A lignina e resíduos alimentam um sistema que torna a planta autossuficiente e ainda capaz de gerar excedentes para o sistema elétrico nacional. Uma usina termelétrica anexa entra em operação sempre que o país precisa reforçar a rede.
No fim das contas, o que sai dali não é apenas celulose em fardos padronizados. É um modelo industrial que conecta genética, campo, tecnologia e energia — e que ajuda a explicar por que o Vale da Celulose deixou de ser promessa para se tornar realidade.






