A edição 2026 da Festa dos Santos Reis - ou Folia dos Santos Reis - transformou o Centro Comunitário do Córrego do Ouro, em Aparecida do Taboado, em um grande ponto de encontro da fé, da cultura e da convivência comunitária.
Realizada no último sábado (3), a celebração reafirmou a força de uma tradição centenária que se renova a cada ano e segue como uma das mais marcantes expressões religiosas e culturais do Estado.
Com organização cuidadosa e espírito de acolhimento, os festeiros mantiveram a essência da festa: comida farta, ambiente seguro e estrutura preparada para receber um público diverso. A proposta, como em todas as edições, foi superar o ano anterior, fortalecendo laços comunitários e preservando costumes transmitidos de geração em geração.
As atividades começaram ainda pela manhã, às 10h30, com o tradicional almoço comunitário, servido até o horário definido pela organização. Ao longo do dia, o público acompanhou apresentações musicais do Grupo Horizonte, que animou o evento do início ao fim.
No fim da tarde, às 18h, a programação religiosa ganhou destaque com a realização do terço. Na sequência, ocorreu a simbólica troca da coroa, passando a responsabilidade da festa para o próximo festeiro. Leilão e forró encerraram o dia em clima de confraternização e celebração coletiva.
A coordenação da edição 2026 ficou sob responsabilidade do casal Mauro Ribeiro Dias e Marimar Garcia, que contou com o apoio de familiares, profissionais e voluntários. Durante todo o evento, o casal recebeu os participantes com gratidão e satisfação pelo sucesso da festa.

A fé que percorre caminhos
A programação da Festa de Reis não é uma exclusividade de Aparecida do Taboado. Diversos municípios de MS mantém viva a tradição, que prevê a saída da bandeira, missa, terço cantado, almoço comunitário, apresentação de Companhias, recebimento de ofertas e encerramentos, geralmente com bailes comunitários.
Segundo o mestre da Companhia Três Reis Magos, Anaim Alves de Souza, os foliões percorrem áreas urbanas e rurais, levando a bandeira aos lares dos devotos. O evento é marcado por momentos de devoção, cantorias tradicionais e arrecadação de donativos, reforçando o caráter religioso e comunitário da celebração.
Em Aparecida do Taboado, a celebração reuniu cerca de oito mil pessoas este ano. Uma equipe experiente de cozinheiros e voluntários atuou na preparação das refeições, garantindo a continuidade de uma tradição que atravessa mais de um século na história local.
Organizada com base em doações e trabalho voluntário, a Folia é um exemplo de mobilização comunitária. O almoço comunitário oferece pratos típicos como lombo, macarrão com frango, carne de porco na lata, carne com batata e uma variedade de doces caseiros, símbolos da hospitalidade e da fartura que marcam a celebração.

Tradição espalhada pelo Estado
Ligada à tradição católica, a prática ocorre em diferentes regiões do Brasil e está associada ao modo de vida de agricultores, vaqueiros, boiadeiros e trabalhadores do campo. A prática representa a visita simbólica dos Três Reis Magos — Baltazar, Belchior e Gaspar — e carrega forte caráter sagrado.
No Estado, a Folia de Reis é celebrada em municípios da Costa Leste, da Grande Dourados, do Pantanal e da fronteira, como Três Lagoas, Paranaíba, Dourados, Corumbá, Miranda, Aquidauana, Porto Murtinho, Ponta Porã, entre outros. Cada local preserva características próprias, refletindo a identidade de seus devotos.
Em Águas do Miranda, por exemplo, a tradição é mantida há 38 anos pela família Modesto. O patriarca Amarílio Modesto da Silva, que chegou ao Estado em 1962, é o Mestre da Bandeira e referência na preservação cultural da comunidade, que realiza celebrações religiosas, festas, torneios esportivos e apresentações musicais durante o período da folia.
Segundo pesquisadores da cultura popular, a manifestação chegou a Mato Grosso do Sul com as primeiras famílias vindas de Goiás, Minas Gerais, São Paulo e regiões de fronteira com o Paraguai, no início do século passado. Apesar das transformações ao longo do tempo, a essência permanece.
“A Folia de Reis representa o início de uma nova jornada. É o momento dos pedidos, dos agradecimentos e da renovação da fé”, destaca o assessor especial da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, Zito Ferrari, que há quatro décadas pesquisa as manifestações culturais populares do Estado.
Mais do que uma celebração religiosa, a Folia de Reis segue como patrimônio vivo, unindo devoção, identidade cultural e memória coletiva em diferentes cantos de Mato Grosso do Sul.
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