Com a incorporação definitiva da gigante da celulose, holding dos Batista centraliza finanças e reforça governança com nomes de peso como Henrique Meirelles; receita do conglomerado atinge 490 bilhões de reais
A Eldorado Brasil consolidou-se como uma das peças centrais na nova estratégia da J&F, a holding controlada pela família Batista. Em uma movimentação que marca o fim de disputas societárias e o início de uma gestão financeira unificada, o conglomerado incorporou formalmente a produtora de celulose — recomprada integralmente no ano passado após um longo embate com a Paper Excellence — ao lado de outros ativos estratégicos como a LHG Mining (mineração) e a Flora (bens de consumo).
A mudança vai além da nomenclatura, com a retirada do termo “Investimentos” do nome da holding. O objetivo é claro: ganhar agilidade na gestão de capital e facilitar o acesso aos mercados de dívida nacionais e internacionais. Sob a nova estrutura, embora as operações de cada unidade permaneçam independentes, o comando financeiro passa a ser centralizado na J&F.
A importância da Eldorado Brasil na nova fase é evidenciada pela escolha do comando. Fernando Storchi, que presidia a produtora de celulose, assume agora o cargo de diretor financeiro (CFO) da holding. Ele atuará ao lado do novo CEO Aguinaldo Ramos Filho, que reforça a visão do grupo como um conglomerado global com receita em moeda forte e projetos de longo prazo. Ele confirmou as mudanças em entrevista à Bloomberg, nesta semana.
Diferentemente de outros grupos que listam suas subsidiárias em bolsa, a J&F pretende manter o controle total de suas unidades. Segundo Ramos Filho, qualquer eventual oferta pública de ações (IPO) no futuro seria da própria holding, e não de empresas isoladas, preservando a integridade do portfólio que gerou uma receita de R$ 490 bilhões no período de 12 meses, encerrado no terceiro trimestre de 2025.

Governança de peso e futuro
Para sustentar essa nova fase, a J&F montou um conselho de administração robusto. O colegiado será presidido por Joesley Batista e contará com o fundador José Batista Sobrinho e seu filho Wesley Batista. O diferencial, contudo, está na ocupação de quatro das sete cadeiras por conselheiros independentes, incluindo o ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.
A estrutura também passa a contar com um conselho fiscal e um comitê de auditoria independente, medidas essenciais para elevar o padrão de transparência e atrair investidores de dívida. A JBS, gigante do setor de carnes listada em Nova York, permanece operando de forma independente, mas seu histórico de crédito serve como referência positiva para a holding.
A nova configuração já foi avaliada pelas principais agências de risco. S&P e Fitch atribuíram nota BB+, enquanto a Moody’s classificou a J&F como Ba1, ambas com perspectiva estável.
O grupo agora trabalha para alongar os prazos de vencimento de suas dívidas e padronizar a divulgação de resultados, preparando o terreno para futuras emissões de títulos.
Embora o foco atual seja a consolidação interna, a J&F sinaliza que está pronta para grandes oportunidades. Um exemplo recente foi a aquisição de um ativo nuclear da Axia Energia pela Âmbar Energia — unidade que também já integra a estrutura da holding — por 535 milhões de reais.

Horizonte 2 à vista?
Com a reorganização da J&F e a incorporação formal da Eldorado Brasil no “núcleo” financeiro do grupo, cresce no setor a expectativa de que o movimento ajude a destravar o plano de expansão que prevê a implantação da segunda linha de produção de celulose em Três Lagoas.
O projeto, que vem sendo discutido há anos, é visto como a chave para dobrar a capacidade produtiva da unidade — com potencial de gerar milhares de empregos diretos e indiretos durante a fase de obras e também na operação, além de puxar uma nova rodada de demanda para fornecedores, logística e serviços na região.
Nos últimos meses, publicações especializadas têm apontado o projeto como o principal eixo de crescimento da Eldorado, incluindo atualizações sobre licenciamento e projeções de capacidade para a futura linha 2 em Mato Grosso do Sul.
A companhia prevê investir cerca de R$ 25 bilhões para a nova fábrica, que funcionará no mesmo site da indústria já em operação. A construção da segunda linha deverá elevar a produção anual de celulose da Eldorado, de 1,8 milhão de toneladas para cerca de 4,4 milhões, gerando cerca de dois mil empregos permanentes.






