O encerramento de 2025 encontrou o Ministério Público de Mato Grosso do Sul no centro de um debate incômodo: enquanto cobra rigor de gestores públicos, a própria instituição passou a ser questionada por escolhas administrativas, despesas elevadas e falhas internas. Críticas sobre transparência, prioridades orçamentárias e condução de concursos ganharam força ao longo do ano.
Mantido majoritariamente por repasses do duodécimo estadual, o orçamento do MPMS absorveu gastos que chamaram atenção. Um dos exemplos foi a compra de café em grãos do tipo arábica, de padrão superior, destinado exclusivamente às máquinas de café expresso usadas por membros e servidores. O quilo chegou perto de R$ 100, mais que o dobro do valor do café comum oferecido ao público nos atendimentos. O custo total da aquisição ultrapassou R$ 31 mil.
Outro foco de críticas foi a política de veículos. Dois processos de compra consumiram mais de R$ 5,5 milhões na aquisição de caminhonetes e SUVs de alto padrão, incluindo unidades blindadas avaliadas acima de R$ 300 mil. Mesmo assim, a instituição ainda desembolsou cerca de R$ 1,78 milhão com locação de automóveis de perfil semelhante, reforçando a percepção de excesso.
Na área de tecnologia, a Procuradoria-Geral de Justiça em MS firmou contrato para a locação de mais de 700 iPhones destinados aos membros do órgão. O acordo, com vigência de cinco anos, pode superar R$ 15 milhões e inclui, além dos aparelhos, planos de telefonia móvel. A licitação foi alvo de questionamento no Conselho Superior do MP, sob alegação de que o edital teria especificações restritivas, dificultando a concorrência com modelos mais acessíveis.
Transparência sob suspeita
As críticas também atingiram a política de divulgação de salários. Monitoramento do DadosJusBR, iniciativa da Transparência Brasil, aponta o MPMS entre os órgãos que não detalham de forma completa os contracheques de seus membros. A restrição, adotada em gestões anteriores, permaneceu sob o comando do atual procurador-geral de Justiça, Romão Ávila Milhan Júnior.
Denúncias levadas ao Conselho Nacional do Ministério Público apontaram remunerações brutas que ultrapassam R$ 180 mil mensais, formadas pela soma de subsídios e uma série de verbas indenizatórias. Entre os benefícios pagos estão auxílios de moradia, transporte, diárias, gratificações por acúmulo de funções e indenizações diversas.
Apesar da controvérsia, o CNMP acabou arquivando a denúncia sobre irregularidades nos pagamentos, em julgamento que contou com a presença do próprio procurador-geral. Ainda assim, os valores destoam da realidade econômica do Estado: a renda média do trabalhador sul-mato-grossense gira em torno de R$ 3 mil e fica muito abaixo do teto constitucional do funcionalismo, que em 2025 foi de R$ 46.366,19, equivalente ao subsídio de ministros do STF. Para a Transparência Brasil, a falta de detalhamento fere normas do próprio CNMP.

Concursos no alvo
Os concursos públicos do MPMS também acumularam polêmicas. O VI Concurso para servidores, lançado em 2022, foi questionado na Corregedoria Nacional devido à lentidão na convocação dos aprovados, situação que levou a desistências. O problema se agrava diante do fato de que mais de 40% dos cargos da instituição seguem ocupados por comissionados.
Já o concurso para promotor de Justiça substituto teve repercussão nacional: a banca organizadora, a Fapec, contratada por quase R$ 500 mil, reprovou todos os 180 candidatos na primeira fase. Após mais de dois mil recursos, apenas 11 seguiram no certame, resultando na posse de nove promotores.
Mesmo com as críticas à metodologia e aos resultados, o MPMS firmou novo contrato com a mesma fundação, no valor de quase R$ 500 mil, para organizar processos seletivos de estagiários e residentes.
O conjunto de episódios consolidou 2025 como um ano de desgaste institucional para o MPMS, marcado por cobranças públicas sobre coerência, transparência e responsabilidade no uso de recursos que, em última instância, são bancados pela sociedade.
.png)





