Durante muitos anos, o jornalismo foi construído dentro de estruturas sólidas e quase intocáveis. Grandes redações, jornais impressos, emissoras de rádio, estúdios de televisão, reuniões de pauta e o tradicional fechamento no fim do dia moldaram gerações inteiras de profissionais. Para muitos jornalistas da minha geração, esse ambiente foi uma verdadeira escola — e comigo não foi diferente.
Comecei na TV, em diferentes emissoras e funções. Passei pelo jornal impresso, pelo rádio diário, pelas assessorias de comunicação, pelos podcasts e, mais recentemente, pelo empreendedorismo digital através do Atualiza MS. Em cada uma dessas experiências, aprendi algo fundamental: o jornalismo muda constantemente de formato, mas sua essência permanece intacta.
O que estamos vivendo agora talvez seja uma das maiores transformações da história da comunicação.
O chamado creator journalism — ou jornalismo de criadores — vem alterando profundamente a maneira como as pessoas consomem informação. Jornalistas independentes passaram a ocupar espaços que antes pertenciam quase exclusivamente às grandes emissoras e aos grandes jornais. Plataformas como YouTube, Instagram, TikTok, podcasts e newsletters, transformaram não apenas a distribuição da notícia, mas também a relação entre o jornalista e o público.
Hoje, muita gente acompanha pessoas antes de acompanhar veículos. O público deixou de seguir apenas marcas tradicionais de mídia e passou a seguir jornalistas com identidade própria, linguagem própria e conexão direta com sua audiência.
Talvez essa seja a palavra mais importante desta nova era: identidade.
Durante muito tempo, o jornalista foi treinado para ser discreto, quase invisível diante da notícia. A informação precisava aparecer mais do que quem a contava. Parece que até ouço meus professores na Universidade cobrando isso!
Mas as redes sociais mudaram completamente essa dinâmica. O público agora quer proximidade. Quer saber quem está por trás da câmera, do microfone ou do texto. Quer acompanhar trajetórias, valores, posicionamentos e visões de mundo.
Isso não significa abandonar a técnica ou transformar o jornalismo em espetáculo. Pelo contrário. Nunca foi tão importante ter credibilidade.
Porque em meio a algoritmos, inteligência artificial, fake news e excesso de informação, a confiança se tornou um dos ativos mais valiosos da comunicação contemporânea. E confiança não se constrói apenas com estruturas gigantescas ou marcas tradicionais. Ela nasce da coerência, da constância e, principalmente, da verdade.
Talvez por isso o jornalismo regional esteja vivendo um momento tão interessante.
No interior, as pessoas ainda valorizam proximidade. Ainda querem saber quem está contando aquela história. Ainda reconhecem quando existe compromisso verdadeiro com a comunidade. Foi exatamente essa percepção que me motivou a criar o Atualiza MS.
O portal nasceu com a proposta de mostrar um Mato Grosso do Sul moderno, pujante e cheio de potencialidades — muito além das manchetes superficiais que normalmente chegam aos grandes centros. Um Estado que se consolidou como capital mundial da celulose, potência agropecuária, referência em sustentabilidade, inovação e transição energética.
Mas o Atualiza também nasceu entendendo algo essencial sobre o comportamento do público moderno: as pessoas não querem apenas consumir notícia. Elas querem sentir pertencimento. E isso talvez explique por que tantos projetos independentes vêm crescendo no Brasil e no mundo.
Estamos entrando em uma era em que a autoridade deixa de ser exclusivamente institucional e passa a ser também pessoal. Isso naturalmente assusta parte do mercado tradicional, porque agora um jornalista com credibilidade, boa comunicação e um celular na mão pode disputar atenção diretamente com estruturas gigantescas, como a própria Rede Globo, a Folha, a CNN e por aí vai...
Ao mesmo tempo, esse novo cenário exige maturidade. É preciso compreender que:
Nem todo criador é jornalista.
Nem toda opinião é informação.
Nem todo alcance representa credibilidade.
O grande desafio do futuro será justamente separar influência de responsabilidade.
Existe uma frase que considero muito verdadeira: toda mudança parece ameaça, para quem estava confortável no modelo anterior. Talvez seja exatamente isso que estejamos vivendo agora.
O jornalismo não morreu. O jornalismo não perdeu relevância. O jornalismo não acabou. Ele apenas deixou de caber exclusivamente dentro das antigas redações.
Hoje, o jornalismo também acontece em podcasts, transmissões ao vivo, newsletters, vídeos curtos, redes sociais e plataformas independentes. E continuará existindo onde houver alguém disposto a investigar, perguntar, contextualizar e contar histórias reais com responsabilidade.
O futuro do jornalismo talvez tenha menos redação e mais identidade.
Mas seguirá precisando — desesperadamente — de bons profissionais (jornalistas).



.gif)

