Publicidade evento Churrascaje 2024

Rota Bioceânica transformará MS em porta de entrada para a Ásia com bilhões em investimentos

Foto: reprodução
Rogério Potinatti
5/2/2026
às
8:00

Pela primeira vez em sua história, Mato Grosso do Sul deixa de ser "área de passagem" e se posiciona como elo estratégico da integração continental; grandes empresas já prospectam Campo Grande para centros de distribuição

Durante séculos, Mato Grosso do Sul foi tratado como periferia econômica do Brasil — um território de passagem, distante dos grandes centros consumidores e das principais rotas internacionais de comércio. Esse cenário está sendo completamente reescrito pela consolidação da Rota Bioceânica, corredor internacional que conecta o Brasil aos portos do Chile, atravessando Paraguai e Argentina, e que coloca o Estado no centro de uma transformação geopolítica e econômica sem precedentes.

A mudança é tão significativa que diplomatas e economistas a descrevem como um ponto de inflexão histórico. Pela primeira vez, um presidente de país vizinho — o Paraguai — realizou visita oficial a Campo Grande para manter contatos com o governador.

Segundo João Carlos Parkinson, diplomata do Ministério das Relações Exteriores, isso não é coincidência: "O Estado se internacionalizou", afirmou em análise sobre o fenômeno.

João Carlos Parkinson/reprodução

De corredor rodoviário a transformação econômica

A Rota Bioceânica não é apenas uma estrada: é uma reconfiguração da lógica de circulação de mercadorias, serviços e pessoas na América do Sul. Com 2.396 quilômetros de extensão ligando o Atlântico ao Pacífico, o corredor reduz drasticamente os custos de transporte e o tempo de entrega para mercados asiáticos.

As exportações brasileiras que saem por Santos levam aproximadamente 17 dias a mais para chegar à Ásia do que se saíssem pelos portos chilenos de Antofagasta e Iquique. Essa economia de tempo e custo não é marginal — é transformadora para a competitividade de setores inteiros.

A ponte internacional sobre o Rio Paraguai, que ligará Porto Murtinho (MS) a Carmelo Peralta (Paraguai), está com quase 90% concluída e deve ser finalizada em maio deste ano. O investimento total do governo paraguaio no trecho de 580 km é de US$ 1,1 bilhão.

Traçado da Rota Bioceânica/reprodução

Campo Grande vira hub logístico e atrai gigantes do varejo

O impacto já é visível. Campo Grande está sendo prospectada por grandes players internacionais — incluindo marketplaces — para instalação de centros de distribuição estratégicos. Esses não serão simples armazéns, mas "armazéns inteligentes" preparados para atender tanto o mercado nacional quanto os fluxos internacionais que emergirão com a integração rodoviária.

Michel Constantino, economista e consultor da Semades (Secretaria Municipal de Inovação, Desenvolvimento Econômico e Agronegócio), confirmou que há prospecção ativa em andamento, com empresas em fase de pedido de licenças na prefeitura. "Coloca Campo Grande como polo central de logística no corredor que ligará o Brasil ao Pacífico", avaliou.

A localização estratégica da capital — no coração do corredor — explica a atração de investimentos bilionários. Não é acaso; é geografia econômica.

Um dos impactos menos óbvios, mas potencialmente mais transformadores, é o benefício para pequenas e médias empresas. Historicamente presas ao mercado interno e ao eixo econômico Sudeste-Sul, essas empresas agora ganham visibilidade e viabilidade para parcerias comerciais internacionais.

"Muitas pequenas e médias empresas enfrentaram dificuldades para se projetarem em nível nacional. No entanto, o corredor abriu espaço e tornou essas empresas mais interessantes para futuras parcerias comerciais", afirmou Parkinson.

A Rota Bioceânica valoriza a localização geográfica e o conhecimento local, criando condições para que negócios de menor porte se tornem atores relevantes na integração sul-americana.

Interesse internacional já é realidade

O potencial não passa despercebido. Durante viagens internacionais do governador Eduardo Riedel à Índia, Japão e Singapura, autoridades estrangeiras demonstraram interesse detalhado no andamento das obras e nas oportunidades comerciais que o corredor gerará.

Mato Grosso do Sul poderá tanto importar produtos com elevado conteúdo tecnológico e fertilizantes quanto ampliar as vendas externas de proteína animal e outros produtos do agronegócio — setor que segue como principal motor da economia estadual.

Apesar do potencial explosivo, Parkinson alerta para a necessidade de avanços institucionais. O Estado e o País precisam criar um arcabouço legal e diplomático mais robusto para atrair investimentos estrangeiros.

Entre as medidas prioritárias estão:

  • Abertura de consulados
  • Celebração de acordos de atração e proteção de investimentos estrangeiros
  • Fortalecimento da segurança jurídica

Sem essas estruturas, o corredor corre o risco de ser apenas uma estrada — em vez de ser o catalisador de uma transformação econômica irreversível.

Obras em andamento na Rota Bioceânica/reprodução

Cronograma da ponte (Rota Bioceânica)

  • Maio 2026: Ligação entre as duas metades da ponte (350 metros sobre o Rio Paraguai)
  • Agosto 2026: Conclusão da etapa final (calçadas, pistas, iluminação, pavimentação, sinalização)
  • Novembro 2026: Acesso à ponte totalmente concluído no lado paraguaio

Resumindo:

  • Transformação histórica: MS se torna elo estratégico da integração continental.
  • Economia de tempo: Exportações para Ásia ganham até 17 dias de vantagem em relação a Santos.
  • Investimentos em movimento: Grandes empresas prospectam Campo Grande para centros de distribuição.
  • PMEs ganham acesso: Pequenas e médias empresas têm oportunidades inéditas de parcerias internacionais.
  • Infraestrutura em andamento: Ponte sobre Rio Paraguai com 90% concluída; conclusão prevista para novembro de 2026.