Anunciada como um dos maiores investimentos industriais da história recente de Mato Grosso do Sul, a futura fábrica de celulose da Bracell em Bataguassu ainda não iniciou suas obras — e o cronograma inicialmente divulgado pelo governo já ficou para trás.
Em agosto do ano passado, o governador Eduardo Riedel havia sinalizado que a construção da planta começaria em fevereiro de 2026. A expectativa foi apresentada após reunião com executivos da empresa, quando também se estimava que a licença necessária para iniciar as obras seria liberada antes do fim de 2025.
O planejamento, no entanto, não se confirmou. Até o momento, o empreendimento recebeu apenas a Licença Prévia, etapa inicial do processo ambiental.
No início deste ano, durante visita técnica à área prevista para a instalação da indústria, o secretário estadual de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação, Jaime Verruck, indicou que a Licença de Instalação — documento que autoriza o início efetivo das obras — poderia ser concedida ainda em março.
Agora, o próprio secretário admite que o prazo precisará ser revisto. Segundo ele, ainda restam etapas burocráticas e análises técnicas a serem concluídas antes da emissão do documento.
A nova previsão aponta para o fim de abril ou início de maio como possível data para a liberação da autorização ambiental.
Procurada para comentar o cronograma do projeto e esclarecer os motivos da demora na liberação da licença, a Bracell não detalhou as etapas em andamento, mas reafirmou que o investimento — estimado em cerca de R$ 16 bilhões — permanece confirmado.
Em nota, a empresa informou que segue cumprindo o planejamento técnico e os requisitos legais exigidos pelos órgãos responsáveis pelo licenciamento ambiental. O grupo também ressaltou que o projeto está sendo conduzido com foco em responsabilidade socioambiental, transparência e diálogo com as comunidades da região.

A experiência recente de outro grande empreendimento do setor no Estado ajuda a dimensionar o cronograma possível. No município de Inocência, por exemplo, a chilena Arauco iniciou as obras de sua fábrica cerca de dois meses após receber a Licença de Instalação.
Se o mesmo intervalo se repetir em Bataguassu, a construção da unidade da Bracell deve começar apenas no segundo semestre deste ano e a conclusão, está prevista para o início de 2030.
O projeto prevê a instalação da fábrica às margens da BR‑267, a aproximadamente nove quilômetros da área urbana de Bataguassu, em direção ao lago formado pela usina hidrelétrica de Usina Hidrelétrica de Porto Primavera.
O empreendimento utilizará água do reservatório do Rio Paraná para suas operações industriais. A estimativa é de captação de cerca de 11 milhões de litros por hora. Desse total, aproximadamente 9 milhões de litros deverão retornar ao lago após tratamento.
Segundo a empresa, os efluentes passarão por processos de controle ambiental antes de serem devolvidos ao reservatório, garantindo impacto mínimo na qualidade da água.
A construção da planta está prevista para durar cerca de 38 meses. Desse período, quatro meses serão dedicados à terraplanagem e os demais à implantação da estrutura industrial. Caso os trabalhos comecem em meados de 2026, a operação plena da unidade pode ocorrer apenas no fim da década.
Empregos e cadeia produtiva
Durante a fase de construção, a obra deve mobilizar até 12 mil trabalhadores. Depois que a indústria entrar em funcionamento, a previsão é de cerca de dois mil empregos diretos e indiretos.
A unidade terá capacidade para processar cerca de 12 milhões de metros cúbicos de eucalipto por ano, provenientes de aproximadamente 300 mil hectares de florestas plantadas. Parte dessa base florestal já está em desenvolvimento em municípios como Santa Rita do Pardo, Ribas do Rio Pardo e a própria Bataguassu.
De acordo com o estudo de impacto ambiental, a fábrica poderá produzir até 2,9 milhões de toneladas de celulose por ano. Dependendo da demanda do mercado, a planta terá capacidade para fabricar também celulose solúvel — matéria-prima usada na produção de fibras têxteis, produtos de higiene, alimentos industrializados, medicamentos e diversos insumos químicos.
Outro ponto previsto no projeto é a geração de energia. A indústria deverá produzir eletricidade suficiente para abastecer sua própria operação e ainda disponibilizar excedente para a rede regional.

Após a produção, a celulose será transportada por rodovia até o município de Aparecida do Taboado, onde está localizada a ferrovia responsável pelo escoamento da carga até o porto de Porto de Santos.
O trajeto rodoviário passará pela MS‑395 e pela BR‑158, acompanhando o curso do Rio Paraná.
Com a nova indústria em operação, a estimativa é de cerca de 80 mil viagens adicionais de carretas por ano nessas estradas, o que exigirá melhorias estruturais na malha rodoviária.
Expansão do setor no Estado
A futura planta de Bataguassu será a quinta fábrica de celulose instalada em Mato Grosso do Sul.
A primeira unidade entrou em operação em 2009, com a Suzano em Três Lagoas. Em 2012, a Eldorado Brasil Celulose inaugurou sua fábrica no mesmo município.
Mais recentemente, em 2024, a Suzano colocou em funcionamento sua nova unidade em Ribas do Rio Pardo, considerada atualmente a maior fábrica de celulose em linha única do mundo, com capacidade anual de 2,55 milhões de toneladas.
Esse título, porém, deverá ser superado pela nova planta da Arauco em Inocência, projetada para produzir até 3,5 milhões de toneladas por ano. As obras seguem em ritmo acelerado e já empregam cerca de 10 mil trabalhadores.
Se confirmada, a chegada da Bracell reforçará ainda mais a posição de Mato Grosso do Sul como um dos principais polos globais da indústria de celulose.




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