Se você acha que “tarifa” é assunto distante, coisa de diplomata e planilha em Washington, vale olhar para Mato Grosso do Sul. O tarifaço imposto pelos Estados Unidos no fim de 2025 mexeu direto com a engrenagem do agro brasileiro — e duas cidades do Estado ficaram entre as que mais sentiram a pancada no país: Campo Grande e Três Lagoas. Juntas, elas deixaram de exportar cerca de R$ 420 milhões para o mercado americano no último trimestre do ano.
Os números vêm de um levantamento da CNM (Confederação Nacional de Municípios), que mapeou onde o prejuízo bateu mais forte após a queda das exportações do agro brasileiro aos EUA. No total, o Brasil teve retração de 31,3% nas vendas do setor para os americanos.
E não foi “só” uma freada simbólica. Segundo o estudo, o impacto financeiro negativo chegou a US$ 973,1 milhões para a economia das administrações municipais — mais de R$ 5 bilhões perdidos nos primeiros três meses de aplicação das sobretaxas.
No recorte do Mato Grosso do Sul, os dois municípios apareceram com perdas bem acima do ruído normal do comércio exterior quando se compara o último trimestre de 2025 com o mesmo período do ano anterior.
Três Lagoas reduziu em US$ 42 milhões as exportações de produtos do agro para os Estados Unidos, o que equivale a aproximadamente R$ 277 milhões.
Já Campo Grande também entrou na lista dos mais impactados: a queda foi de US$ 36 milhões, cerca de R$ 193,2 milhões.
A CNM chama atenção para o efeito dominó que esse tipo de baque costuma trazer. O presidente da entidade, Paulo Ziulkoski, resume a preocupação dos gestores municipais em duas palavras que doem: emprego e arrecadação. Menos exportação tende a significar menos atividade, menos imposto circulando e, no fim, a conta chegando para a população em serviços e oportunidades.

O paradoxo: caiu com os EUA, mas o Estado bateu recorde lá fora
Aqui entra o detalhe que deixa a história mais interessante — e mais espinhosa. Mesmo vendendo menos para os Estados Unidos, o Mato Grosso do Sul ampliou o ritmo de exportações no geral e alcançou volumes recordes de alimentos no mercado externo.
Em 2025, o agro continuou sendo o grande motor das exportações do Estado: respondeu por cerca de 95% de tudo o que MS vendeu ao exterior no ano.
Nos primeiros nove meses, o setor exportou aproximadamente US$ 7,68 bilhões, um resultado 3% acima do mesmo período de 2024. O destaque ficou para carnes (alta de 37%), além de celulose e soja; o milho também cresceu em volume exportado.
E tem mais: justamente entre julho e setembro — quando o tarifaço foi anunciado e passou a valer — MS registrou alta de 3,7% nas exportações totais, mesmo com a queda específica nas vendas aos EUA.
De janeiro a novembro de 2025, o valor total exportado pelo Estado chegou a cerca de US$ 9,84 bilhões, crescimento de 5,48% sobre 2024. Esse desempenho puxou um saldo positivo na balança comercial até novembro de US$ 7,42 bilhões, 10,46% acima do ano anterior, conforme o Boletim de Comércio Exterior da Semadesc.
No fim das contas, o tarifaço não “matou” a exportação sul-mato-grossense — mas deixou um recado claro: depender demais de um comprador grande pode virar um problema de uma hora para outra. E quando o problema chega, ele não para na porteira: ele aparece no caixa da prefeitura e no mercado de trabalho.







