Quase dois meses após a morte da jornalista Vanessa Ricarte, de 42 anos, a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) passou por uma reformulação em sua equipe nesta quinta-feira (27). Três delegadas que atuavam diretamente no caso foram transferidas para outras unidades policiais, após a conclusão de um relatório interno que indicou não haver falhas na atuação das profissionais.
Entre as transferidas está Riccelly Maria Albuquerque, responsável pelo registro do boletim de ocorrência de Vanessa, que agora retornará à Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário (Depac). Essa mudança foi definida como uma medida administrativa, segundo fontes da Polícia Civil.
O caso ganhou notoriedade após a jornalista ser assassinada pelo então companheiro, o músico Caio Nascimento. O relatório interno da Corregedoria da Polícia Civil afirmou, em março, que não houve descumprimento de protocolos pela Deam. Segundo o documento, o problema principal estaria na demora da notificação judicial do agressor, e não na atuação das delegadas.
Mesmo assim, diante da repercussão e como forma de aprimorar o atendimento às vítimas, o governo determinou uma revisão detalhada em cerca de 6 mil boletins de ocorrência registrados pela Deam. Além disso, um Grupo Técnico passou a atuar para melhorar procedimentos internos e evitar futuros casos semelhantes.
Um convênio firmado recentemente entre forças policiais e o governo estadual possibilitará intimações imediatas dos agressores por policiais civis e militares em casos de medidas protetivas. O acordo terá duração de cinco anos e prevê capacitações constantes, estabelecimento de metas e monitoramento rigoroso.
Para reforçar o trabalho diário da Deam, mais uma delegada e quatro escrivães foram designados para a unidade.

Relatório aponta abuso emocional severo
O relatório final da delegacia sobre o caso Vanessa trouxe detalhes perturbadores sobre o relacionamento abusivo vivenciado pela jornalista. O documento apontou um ciclo de manipulações emocionais promovidas por Caio, que restringia cada vez mais a liberdade e o convívio social da vítima, controlando suas ações diárias e até mesmo suas mensagens pessoais.
Depoimentos incluídos no relatório revelaram que Vanessa chegou a ficar cinco dias em cárcere privado antes de sua morte, sem alimentação adequada e sob ameaças constantes. Familiares relataram à polícia que a jornalista demonstrava sinais claros de dependência emocional e distanciamento progressivo.
O crime ocorreu exatamente no dia em que Vanessa havia retornado à sua casa, acompanhada de um amigo, após buscar uma medida protetiva contra o agressor. Sem que Caio tivesse recebido a intimação judicial a tempo, o encontro terminou de forma fatal com três golpes de faca no peito da jornalista, que morreu no hospital pouco depois.
Áudios gravados por Vanessa antes de ser assassinada revelaram sua frustração com a demora e dificuldades enfrentadas ao buscar ajuda. A repercussão desses áudios motivou uma onda de cobranças públicas por melhorias no atendimento às vítimas de violência doméstica.