Mesmo em 2026, quando a informação circula em velocidade instantânea e o acesso à notícia nunca foi tão amplo, um problema antigo continua assombrando o jornalismo: a violência contra profissionais da imprensa.
A recente revelação envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro escancara essa realidade.
Segundo investigações tornadas públicas em decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, o empresário teria articulado um núcleo de intimidação contra jornalistas que publicavam reportagens contrárias aos seus interesses. Em um dos episódios mais chocantes, conversas apontam para a ideia de simular um assalto violento contra o jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, com o objetivo de intimidá-lo fisicamente e "quebrar todos os seus dentes".
Beira ao absurdo!
A denúncia gerou forte reação de entidades como a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, a Federação Nacional dos Jornalistas e a Associação Brasileira de Imprensa. Todas foram unânimes ao classificar o episódio como um grave atentado à liberdade de imprensa e ao próprio Estado Democrático de Direito.
Infelizmente, casos como esse não são exceção. São parte de um ambiente de hostilidade que jornalistas brasileiros conhecem bem — seja diante do poder econômico, político ou de grupos que se sentem incomodados com a presença da imprensa.
Quase todos os colegas que conheço vivenciaram histórias semelhantes. Eu também vivenciei algumas.
Logo no início da minha carreira, ainda repórter de primeira viagem, vivi um episódio que nunca esquecerei. Insistia para que um delegado de polícia bem truculento, detalhasse um caso que investigava. A resposta veio em forma de ameaça velada: dentro da própria delegacia, em Presidente Prudente, ele me disse que “adoraria me encontrar por aí”. Era um aviso claro de que minha insistência em fazer perguntas não era bem-vinda.
Anos depois, em Bauru, durante a cobertura de uma denúncia de trabalho escravo, a situação foi ainda mais grave. Eu e o repórter cinematográfico Sérgio Bronzatto fomos detidos em uma sala, por funcionários da fazenda investigada. Cercados, ouvimos ameaças de morte e tivemos nossa liberdade restringida por simplesmente tentar registrar o que estava acontecendo.
Outros dois episódios marcantes ocorreram em Três Lagoas. Durante a cobertura de um protesto de caminhoneiros, ao lado do cinegrafista Odimar Borges, fomos cercados por manifestantes. Vieram os gritos, os insultos, as tentativas de intimidação. Alguns ameaçavam tomar nossos equipamentos. Outros falavam em agressão física. Por sorte, conseguimos sair ilesos.
Em outra ocasião, um oficial da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul me intimidou e humilhou, dentro do Batalhão da PM, simplesmente por estar fazendo o meu trabalho.
Essas situações deixam marcas — e levantam uma pergunta inevitável: até quando?
A violência contra jornalistas não é apenas um problema da categoria. Ela atinge diretamente a sociedade. Quando um repórter é ameaçado, intimidado ou silenciado, não é apenas o profissional que sofre pressão. É a informação que corre risco. É o direito do cidadão de saber o que acontece, de verdade, que fica comprometido.
A Constituição brasileira garante a liberdade de imprensa não como privilégio corporativo, mas como um pilar da democracia. Sem jornalistas livres para investigar, perguntar e publicar, a sociedade perde uma de suas principais ferramentas de fiscalização do poder.
Casos como o revelado nas investigações sobre Daniel Vorcaro precisam servir de alerta — e também de exemplo. A resposta institucional deve ser firme, rápida e pedagógica. Não se pode naturalizar a tentativa de calar quem exerce o dever de informar.
O jornalismo incomoda. Sempre incomodou. E talvez esse seja um de seus maiores sinais de utilidade pública. Nenhuma sociedade democrática pode aceitar que esse incômodo seja respondido com violência.
Perguntar, investigar e contar histórias não deveria ser uma atividade de risco.
Mas, infelizmente, continua sendo. Com o risco até do profissional perder todos os dentes.




