A Petrobras deu um passo decisivo para reativar a Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN-3), em Três Lagoas, ao concluir a seleção das empresas responsáveis pelas principais etapas da obra. Com os vencedores definidos, a estatal entrou agora na fase de negociação final dos contratos, etapa que antecede o reinício efetivo do canteiro.
Para viabilizar o projeto, a companhia optou por fracionar a contratação em sete grandes lotes, no modelo EPC (engenharia, suprimentos e construção), o que ampliou a disputa entre empresas e distribuiu a execução entre diferentes grupos de engenharia.
Entre os selecionados estão nomes de peso do setor. No primeiro lote, voltado a obras iniciais, o consórcio formado por ETC Empreendimentos e Tecnologia em Construção e Engeko Engenharia apresentou a melhor proposta. A Engeko também liderou o segundo lote de forma individual. Já o terceiro ficou com o consórcio Enfil e Carioca Engenharia.
No quarto lote, a vencedora foi a Nova Engevix Engenharia e Projetos, enquanto o quinto — o mais robusto em valor — ficou sob responsabilidade do consórcio formado por Monto Industrial e Mendes Júnior. A Coesa Construção e Montagens liderou o sexto lote, e o sétimo foi arrematado por uma parceria entre Nova Engevix e a chinesa PowerChina.
Os contratos abrangem desde serviços de infraestrutura, como drenagem e pavimentação, até sistemas industriais mais complexos, incluindo produção de amônia, granulação de ureia, automação e logística interna da planta.
Com essa etapa concluída, a Petrobras projeta iniciar as obras ainda neste ano. O cronograma segue alinhado ao plano estratégico da companhia, com previsão de conclusão até o fim de 2029.
A UFN-3, que teve as obras interrompidas em 2014, já possui cerca de 81% de sua estrutura pronta. Para finalizar o empreendimento, a estimativa é de investimento adicional de aproximadamente US$ 1 bilhão.
Quando entrar em operação, a unidade terá capacidade para produzir 3,6 mil toneladas de ureia e 2,2 mil toneladas de amônia por dia, atendendo principalmente os mercados do Centro-Oeste, Sul e Sudeste. A expectativa é reduzir a dependência do Brasil de fertilizantes importados e fortalecer o agronegócio nacional.
Outro impacto direto será no emprego. A fase de construção deve mobilizar entre 7 mil e 8 mil trabalhadores, o que já acende um alerta no mercado local.

Disputa por profissionais deve se intensificar
A UFN-3 nem começou a levantar poeira no canteiro — e já expõe um dos maiores gargalos do crescimento em Mato Grosso do Sul: gente para trabalhar.
Com previsão de retomada entre junho e julho, a obra da fábrica de fertilizantes da Petrobras em Três Lagoas pode exigir, segundo especialistas, até 8 mil trabalhadores no pico. O problema é que o Estado já vive um cenário próximo do limite de ocupação, com empresas disputando profissionais em praticamente todos os setores.
Na prática, a corrida não será só por concreto, aço e equipamentos. Será, principalmente, por mão de obra.
Dentro da Petrobras, o alerta já está aceso. O gerente-executivo de projetos, Dimitrios Chalela Magalhães, admite que a escassez de trabalhadores é um fator crítico — especialmente em um momento em que grandes indústrias avançam simultaneamente no chamado Vale da Celulose. A estratégia da estatal não é esperar o problema acontecer. É tentar fabricar a solução.

A empresa decidiu acelerar programas de formação profissional antes mesmo do início efetivo das obras. A aposta está no programa Autonomia e Renda, desenvolvido com instituições como o Senai, para preparar trabalhadores em áreas específicas da construção industrial pesada — soldagem, elétrica, montagem e instrumentação.
A lógica é simples: se não há profissionais suficientes no mercado, será preciso formá-los rapidamente.
Ainda assim, não há garantia de que isso será suficiente. Mato Grosso do Sul vive uma espécie de “efeito colateral do crescimento”: grandes projetos industriais exigem milhares de trabalhadores ao mesmo tempo, em um estado com população relativamente pequena.
Empresas como Suzano, Arauco, Eldorado Brasil e Bracell já pressionam o mercado de trabalho — e a chegada da UFN-3 tende a intensificar ainda mais essa disputa.
A prioridade da Petrobras é contratar gente da própria região. Menos custo logístico, mais impacto econômico local. Mas, se faltar mão de obra, a empresa já admite buscar profissionais em outros estados. E o efeito não se limita ao canteiro de obras. Um contingente de milhares de trabalhadores circulando diariamente deve impulsionar comércio, serviços, transporte e alimentação nas cidades do entorno. É o tipo de movimento que muda a economia local — para o bem e para o desafio.
Para o especialista em recrutamento Carlos Ornellas, a escassez já deixou de ser pontual e virou estrutural. Segundo ele, praticamente todos os setores — do agro à indústria, passando por logística, varejo e energia — enfrentam dificuldade para preencher vagas. E o problema não termina quando a obra acabar.
A operação da UFN-3 vai exigir profissionais ainda mais qualificados, principalmente em áreas técnicas. Ou seja: o desafio de formar gente não é temporário — é permanente. No fim das contas, o sucesso da UFN-3 não depende apenas de engenharia ou investimento. Depende de algo mais básico — e hoje mais escasso: pessoas preparadas para fazer o projeto acontecer.


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