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Petrobras reinicia contratações e projeta pré-operação da UFN3 para 2028

Foto: reprodução
Rogério Potinatti
2/3/2026
às
7:55

Depois de quase duas décadas em silêncio, concreto exposto ao tempo e estruturas abandonadas no coração industrial de Três Lagoas, um dos projetos mais ambiciosos da indústria nacional dá sinais para voltar a respirar. A Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III — UFN3 — parece estar deixando de ser apenas uma promessa interrompida e entra em uma fase decisiva que pode recolocar o Brasil no jogo global dos insumos agrícolas.

A Petrobras iniciou, finalmente, a contratação das empresas que serão responsáveis por concluir o empreendimento, lançado originalmente em 2008 com uma missão estratégica: diminuir a dependência externa de fertilizantes e blindar o agronegócio brasileiro de crises internacionais.

Agora, o projeto avança simultaneamente em duas frentes críticas. De um lado, o processo de licitação e contratação dos pacotes de obras. Do outro, a garantia do fornecimento contínuo de gás natural — o combustível que dará vida à futura produção.

Conforme a Petrobras, a decisão final de investimento está prevista ainda no primeiro semestre de 2026. Se confirmada, abrirá caminho para a retomada efetiva das obras este ano.

A fábrica deve iniciar sua fase de pré-operação em 2028, etapa que antecede o funcionamento pleno, com conclusão definitiva estimada para 2029.

Quando estiver em atividade, a unidade terá escala suficiente para produzir cerca de:

  • 1,2 milhão de toneladas de ureia por ano
  • 70 mil toneladas anuais de amônia

Trata-se de uma capacidade produtiva capaz de impactar diretamente o abastecimento nacional, especialmente em regiões estratégicas do agronegócio, como Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Paraná e São Paulo. Mais do que números, a UFN3 representa uma mudança estrutural: produzir dentro de casa aquilo que hoje o país precisa importar.

Uma fábrica desse porte exige um fluxo energético constante e massivo. A estimativa é de consumo diário de aproximadamente 2,2 milhões de metros cúbicos de gás natural — volume já previsto no planejamento estratégico da estatal para o período de 2026 a 2030.

O abastecimento virá da malha nacional integrada de transporte de gás, um sistema que reúne diversas fontes, tanto nacionais quanto internacionais. Isso significa que a operação da unidade não dependerá de um único fornecedor específico, reduzindo riscos e aumentando a segurança energética.

Na prática, é uma estrutura desenhada para garantir funcionamento contínuo e previsível ao longo das próximas décadas.

O governo federal já colocou números concretos sobre a mesa. A Lei Orçamentária sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva prevê R$ 1,564 bilhão somente neste ano para acelerar a retomada da obra.

O valor representa quase metade dos R$ 3,5 bilhões necessários para concluir a planta.

Os recursos fazem parte de um plano mais amplo da Petrobras, que destina US$ 15,8 bilhões ao segmento que inclui refino, transporte, petroquímica e fertilizantes — sinalizando que o setor voltou ao centro da estratégia industrial brasileira.

Para acelerar a execução e ampliar a competitividade, o empreendimento foi dividido em 11 grandes pacotes de contratação. Entre eles estão:

  • Obras de drenagem e pavimentação
  • Construção de prédios administrativos
  • Instalação de laboratórios
  • Montagem de oficinas e estruturas operacionais

Esse modelo permite que várias empresas atuem simultaneamente, reduzindo prazos e otimizando custos.

As primeiras propostas já começaram a ser analisadas após a abertura dos envelopes no fim do ano passado.

De símbolo de abandono a uma das fábricas mais estratégicas do Brasil

Durante anos, a estrutura inacabada da UFN3 se tornou um símbolo de frustração industrial. Agora, passa a representar algo diferente: a tentativa de reconstruir a autonomia produtiva do país em um setor vital.

Hoje, o Brasil importa grande parte dos fertilizantes que consome — uma vulnerabilidade exposta de forma dramática durante crises globais recentes.

A conclusão da fábrica pode mudar esse cenário.

A retomada da UFN3 sinaliza uma reconfiguração estratégica: reduzir dependências externas, fortalecer o agronegócio e transformar Três Lagoas em um dos principais polos industriais ligados à produção de fertilizantes da América Latina.

O projeto que ficou congelado no tempo volta, agora, com uma nova missão — deixar de ser promessa e se tornar infraestrutura real, capaz de impactar diretamente o futuro da economia brasileira.