O que deveria desafogar o trânsito e redesenhar a mobilidade de Três Lagoas virou um símbolo de impasse, silêncio e incerteza. Com metade concluída e milhões já investidos, o contorno rodoviário de Três Lagoas permanece abandonado desde o fim de 2024 — e agora o contrato com a construtora pode ser oficialmente rompido.
As informações são do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), que colocou a empreiteira contra a parede.
Após duas notificações ignoradas, o órgão federal aguarda uma resposta final e, caso a empresa não formalize a retomada nos próximos dias, o vínculo será encerrado por descumprimento, abrindo um novo capítulo de uma obra que já acumula atrasos e disputas técnicas.

Projeto pela metade
Cerca de 50% do contorno estão concluído, segundo o Dnit. Aproximadamente 15 quilômetros receberam pavimento em concreto e o projeto prevê ainda a construção de seis viadutos e uma ponte sobre o Córrego do Onça.
O investimento é robusto: há R$ 33 milhões disponíveis para retomada imediata, além de uma previsão total que pode ultrapassar R$ 200 milhões em recursos federais.
Mesmo com dinheiro em caixa e entraves fundiários resolvidos, as máquinas seguem paradas.
Se o contrato for rescindido, o Dnit deverá convocar a segunda colocada na licitação. Caso haja recusa, a terceira será chamada. Se nenhuma empresa aceitar assumir o desafio, o projeto poderá voltar à estaca zero, com uma nova licitação — o que significaria mais anos de espera.

Culpa da chuva. Será?
A paralisação foi alegada oficialmente por causa das chuvas no fim de 2024. Mas o que seria uma interrupção temporária se transformou em um conflito contratual.
A construtora alegou desequilíbrio econômico-financeiro, afirmando que o custo da obra aumentou além do previsto. Um dos principais pontos de atrito envolve o fornecimento de materiais como brita e areia.
O contrato estabelecia que esses insumos seriam produzidos pela própria empresa — condição aceita na assinatura. No entanto, a empreiteira optou por comprá-los no mercado, elevando significativamente os custos. Também foram apontadas dificuldades para obtenção de licenças ambientais e acesso a áreas de extração.
Além disso, a empresa reivindicou que o Dnit assumisse despesas extras, incluindo custos de mobilização e desmobilização. O órgão federal, porém, mantém a posição de que essas obrigações são de responsabilidade da contratada.
Sem acordo, o projeto entrou em compasso de espera.
Mais do que uma obra de engenharia, o contorno é considerado peça-chave para o futuro urbano de Três Lagoas. O objetivo é retirar o fluxo intenso de caminhões da avenida Ranulpho Marques Leal, principal eixo viário da cidade, reduzindo congestionamentos, acidentes e desgaste da infraestrutura urbana.
Enquanto o impasse não é resolvido, o tráfego pesado continua atravessando o coração da cidade, mantendo o problema que o contorno prometia resolver.

O cenário atual é paradoxal: metade pronta, dinheiro disponível, mas sem previsão concreta de retomada.
O que deveria ser um marco de modernização logística agora depende de uma decisão administrativa que pode definir dois caminhos opostos — retomar rapidamente ou mergulhar em um novo ciclo de atrasos.
Por enquanto, o contorno rodoviário mais esperado na região leste de MS segue onde ninguém quer: no meio do caminho.
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