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Crise global reacende alerta no agro e reforça importância da UFN-3 em Três Lagoas para reduzir dependência de fertilizantes

Foto: reprodução
Rogério Potinatti
8/4/2026
às
8:05

A nova escalada de tensões no Oriente Médio voltou a colocar o agronegócio brasileiro em estado de atenção — e reacendeu um velho debate: a dependência externa de fertilizantes. Em um cenário de incerteza global, especialistas apontam que o Brasil pode enfrentar aumento nos custos de produção agrícola, com reflexos diretos no preço dos alimentos nos próximos meses.

Hoje, cerca de 85% dos fertilizantes utilizados nas lavouras brasileiras vêm do exterior. Em 2025, o país importou mais de 45 milhões de toneladas, enquanto a produção interna ficou abaixo de 8 milhões. Esse desequilíbrio estrutural deixa o Brasil vulnerável a qualquer instabilidade internacional — seja geopolítica, cambial ou logística.

O impacto não é imediato, mas segue uma lógica previsível: primeiro encarecem energia e fretes; depois, os insumos agrícolas; por fim, o consumidor sente no bolso, com alta nos alimentos. Produtos de ciclo curto, como feijão e hortaliças, tendem a refletir esse movimento mais rapidamente, enquanto culturas como soja e milho absorvem os efeitos ao longo dos próximos ciclos.

UFN-3: peça-chave parada no tempo

É nesse contexto que a Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN-3), em Três Lagoas, volta ao centro do debate nacional. Paralisada há mais de uma década, a planta tem potencial para ampliar significativamente a produção interna de fertilizantes nitrogenados — justamente um dos insumos mais sensíveis para o agro brasileiro.

A retomada do projeto, já incluída no planejamento estratégico da Petrobras, é vista como uma das principais alternativas para reduzir a dependência externa e dar mais previsibilidade ao setor produtivo. Se em operação, a unidade poderia abastecer parte relevante do mercado nacional, diminuindo a exposição a crises internacionais como a atual.

Fábrica de fertilizantes da Petrobras em Três Lagoas segue indefinida desde 2014 | reprodução

Especialistas destacam que o encarecimento dos fertilizantes tende a se espalhar por toda a cadeia produtiva. O aumento no custo de grãos como milho e soja impacta diretamente a produção de proteínas, como frango, ovos e carne suína, além de pressionar outros itens da cesta básica.

Mesmo com certa estabilização após crises anteriores, o Brasil ainda não superou suas fragilidades estruturais. A dependência de importações, a variação cambial e os custos logísticos seguem como fatores de risco permanentes.

Além disso, há preocupação jurídica. Em momentos de crise, fornecedores internacionais podem acionar cláusulas contratuais para justificar atrasos ou revisões de preço, transferindo o risco para produtores rurais brasileiros.

Enquanto o governo monitora o cenário e recomenda cautela ao mercado, o episódio reforça uma constatação cada vez mais evidente: o Brasil precisa avançar na produção interna de insumos estratégicos.

Nesse sentido, a UFN-3, em Três Lagoas, deixa de ser apenas uma obra paralisada e passa a simbolizar uma oportunidade concreta de fortalecer a soberania produtiva do país. Em meio a crises globais recorrentes, o futuro do agro brasileiro pode depender, cada vez mais, de decisões que passam diretamente pelo chão sul-mato-grossense.