Celebrado em 8 de março em diversos países, o Dia Internacional da Mulher nasceu muito mais como um ato de resistência do que como uma data comemorativa. A origem está nas mobilizações de trabalhadoras do início do século XX, que reivindicavam melhores condições de trabalho, direitos políticos e igualdade salarial.
A proposta de criar um dia dedicado à luta das mulheres surgiu em 1910, durante a Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, realizada em Copenhague. A iniciativa partiu da ativista alemã Clara Zetkin, que defendia a mobilização internacional por direitos iguais, especialmente no mercado de trabalho.
A primeira celebração ocorreu em 1911, em países como Alemanha, Áustria, Dinamarca e Suíça. No mesmo ano, um episódio marcaria a história das reivindicações trabalhistas femininas: o incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist Factory fire, em Nova York, que resultou na morte de 146 trabalhadores — a maioria mulheres imigrantes. A tragédia acelerou discussões sobre segurança no trabalho e direitos das trabalhadoras.

Histórico
A consolidação do 8 de março como data oficial veio décadas depois. Em 1975, a Organização das Nações Unidas reconheceu oficialmente o Dia Internacional da Mulher e incluiu a data no calendário global, ampliando o debate sobre igualdade de gênero, acesso à educação, autonomia econômica e participação feminina em espaços de poder.
Mais de um século após as primeiras mobilizações, o 8 de março continua sendo marcado por reflexões sobre avanços e desafios. No Brasil, por exemplo, o empreendedorismo feminino cresceu de forma significativa nos últimos anos, mas ainda convive com desigualdades estruturais.

Desafios às mulheres
Dados da Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, por meio da Pnad Contínua, mostram que o país encerrou 2024 com cerca de 10,4 milhões de mulheres à frente de negócios. O número representa aproximadamente 42% de todos os empreendedores brasileiros. Entre os microempreendedores individuais, a participação feminina chega a 48%.
O perfil dessas empreendedoras também revela um paradoxo. Em média, elas apresentam maior nível de escolaridade do que os homens que comandam empresas. Cerca de 29% das mulheres empreendedoras têm ensino superior completo, enquanto entre os homens o índice é de 21%.
Apesar disso, a renda média feminina segue menor. Enquanto homens que empreendem recebem cerca de R$ 3.793 por mês, as mulheres têm rendimento médio de R$ 2.867 — uma diferença de R$ 926 mensais.
Os setores onde as mulheres mais empreendem são serviços (57%) e comércio (25%), seguidos por indústria (12%), agropecuária (6%) e construção civil (1%), segundo dados do DataSebrae. Áreas como beleza, moda e alimentação concentram boa parte dos negócios, embora também haja avanço em segmentos como tecnologia, educação e saúde.
Outro desafio está no acesso ao crédito. Levantamento do Instituto Rede Mulher Empreendedora aponta que 42% das empreendedoras tiveram pedidos de financiamento negados em 2023. Mesmo representando cerca de 40% das solicitações de crédito para pequenos negócios, as mulheres receberam apenas 29% do total liberado.
Além das barreiras financeiras, muitas ainda enfrentam a chamada dupla jornada. De acordo com o IBGE, mulheres dedicam em média 9,6 horas semanais a mais que os homens às tarefas domésticas. Esse tempo, muitas vezes, reduz as oportunidades de investimento no próprio negócio, capacitação profissional e ampliação de redes de contato.

Mulheres empreendedoras
Apesar dos obstáculos, o empreendedorismo feminino segue em expansão. O Brasil registrou em 2024 o maior número de mulheres empreendedoras da história, reflexo também do avanço da digitalização e da formalização de pequenos negócios.
A tendência é de continuidade desse crescimento. Pesquisa do Global Entrepreneurship Monitor indica que 54,6% dos brasileiros que pretendem abrir um negócio até 2026 são mulheres.
Mais de um século após as primeiras manifestações que deram origem ao Dia Internacional da Mulher, os dados mostram avanços importantes. Ao mesmo tempo, reforçam que a busca por igualdade econômica e social ainda permanece como uma das principais bandeiras da data.

Trabalhadoras do setor florestal
Esse avanço também pode ser observado em setores tradicionalmente masculinos, como a indústria florestal e de celulose, um dos motores econômicos de Três Lagoas, no leste de Mato Grosso do Sul.
Na Eldorado Brasil Celulose, por exemplo, histórias de ascensão profissional ajudam a ilustrar a transformação em curso. As irmãs Daila e Denise da Silva começaram na empresa ainda jovens, em posições de aprendizagem, e hoje ocupam cargos estratégicos em áreas diferentes da companhia.
Daila iniciou a trajetória como Jovem Aprendiz no Controle Florestal e atualmente atua na área de Desenvolvimento Organizacional, no setor de Recursos Humanos. Já Denise trilhou caminho ligado ao meio ambiente e hoje exerce a função de Analista Florestal.
As duas foram promovidas em 2024, com poucas semanas de diferença, e representam um movimento mais amplo dentro da empresa. Entre 2023 e 2024, o número de mulheres na companhia cresceu 14%, com destaque para a área administrativa, onde elas já são maioria.
Segundo as próprias irmãs, o incentivo ao desenvolvimento profissional e a possibilidade de crescimento interno foram determinantes para a consolidação da carreira. Denise afirma que acompanhar a evolução da irmã dentro da empresa reforçou sua decisão de seguir o mesmo caminho.
“Quando ela entrou, senti vontade de fazer parte também, porque via o crescimento dela e pensava que ali era um lugar onde eu poderia evoluir”, relata.
Para Daila, a mudança para a área de Recursos Humanos foi resultado de planejamento e preparo ao longo dos anos. Antes da transição, ela já mantinha contato com rotinas ligadas à gestão de pessoas, como controle de ponto, custos de mão de obra e suporte a gestores.
“Eu sempre tive interesse em trabalhar com RH e comecei a demonstrar isso desde o início, criando aproximação com a área até surgir a oportunidade”, conta.

A presença feminina também cresce na base da cadeia produtiva do setor florestal. Em viveiros de mudas e áreas operacionais, famílias inteiras encontram na indústria oportunidades de trabalho e estabilidade. Regina Medes de Jesus é ajudante de viveiro em Andradina (SP) e se orgulha de ver nas filhas Eliandra e Karen seguindo seus passos, reforçando uma rede de apoio que combina desenvolvimento profissional e fortalecimento familiar.
Além do aumento da participação feminina, empresas do setor têm investido em programas de capacitação voltados especificamente para mulheres. Entre as iniciativas estão trilhas de carreira, treinamentos técnicos e formação profissional para funções historicamente ocupadas por homens, como operação de máquinas e atividades de campo.
A ampliação dessas oportunidades acompanha o crescimento da indústria de celulose em Três Lagoas, cidade que se consolida como um dos principais polos mundiais do setor. Nesse ambiente de expansão econômica, a presença feminina avança gradualmente, abrindo novos espaços em diferentes etapas da cadeia produtiva — da gestão ao trabalho em campo.
Assim, o cenário que antes era dominado majoritariamente por homens começa a se transformar, refletindo uma tendência mais ampla de inclusão e diversidade no mercado de trabalho brasileiro.







