Durante décadas, a paisagem rural de Mato Grosso do Sul foi marcada por dois protagonistas quase incontestáveis: o gado nos pastos extensos e a soja dominando grandes áreas agrícolas. Esse cenário, porém, já começou a passar por uma transformação silenciosa — e profunda.
Nos últimos anos, novas cadeias produtivas ganharam força e começam a mudar o desenho econômico e produtivo do campo sul-mato-grossense. A expansão da cana-de-açúcar, o avanço acelerado das florestas plantadas de eucalipto e a chegada da citricultura indicam que o agronegócio estadual entrou em uma nova fase, marcada por diversificação, industrialização e integração com grandes cadeias globais.
Os números mostram que essa transição já está em curso. Dados do Siga-MS apontam que a área de cana-de-açúcar cresceu 7,3% entre as últimas safras, passando de 916 mil hectares em 2023/2024 para mais de 983 mil hectares na segunda safra de 2024/2025.
A cultura ganhou protagonismo impulsionada pelo crescimento do setor de bioenergia. O Estado se consolidou como uma das principais fronteiras da produção de etanol e açúcar do país e também avança em soluções energéticas mais sustentáveis. Um exemplo é a produção de biometano a partir da vinhaça — resíduo da cana — que já conta com unidades industriais em municípios como Ivinhema e Nova Alvorada do Sul, esta última com investimento aproximado de R$ 350 milhões.

Se a cana cresce de forma consistente, o salto mais expressivo ocorreu na base florestal. Em apenas um ano, o cultivo de eucalipto aumentou mais de 20%, saltando de 1,6 milhão para cerca de 1,9 milhão de hectares plantados.
Essa expansão está diretamente ligada ao fortalecimento da indústria de celulose no Estado. Mato Grosso do Sul já abriga algumas das maiores plantas industriais do setor no mundo, com unidades da Suzano em Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo e da Eldorado Brasil também em Três Lagoas. O ciclo de investimentos continua em ritmo acelerado: novas fábricas estão em construção ou em fase de implantação por grupos como Arauco e Bracell.
A expectativa do setor é que a área florestal alcance 2,5 milhões de hectares até 2028, ampliando em cerca de 40% a base atual de produção.

Enquanto isso, outra atividade começa a se consolidar como nova fronteira agrícola: a citricultura. Segundo a Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), mais de 7 milhões de mudas de laranja já foram implantadas no Estado, dentro de um plano que prevê a formação de 50 mil hectares de pomares até 2030.
O volume de investimentos previstos para essa cadeia produtiva chega a R$ 2,4 bilhões. Projetos de implantação estão distribuídos em municípios estratégicos como Campo Grande, Sidrolândia, Ribas do Rio Pardo, Paranaíba, Cassilândia, Aparecida do Taboado, Três Lagoas, Brasilândia, Bataguassu, Naviraí e Dois Irmãos do Buriti.
Entre esses municípios, Cassilândia desponta como um dos polos promissores da nova citricultura sul-mato-grossense.
De acordo com o presidente do Sindicato Rural local, Cilas Alberto de Souza, a mudança no perfil produtivo já é visível. Tradicionalmente marcada pela pecuária, a região começa a abrir espaço para novas culturas.
Segundo ele, produtores médios e grandes têm optado por arrendar áreas para projetos ligados à cana, eucalipto e laranja, impulsionados por propostas consideradas economicamente mais atrativas.
Essa transformação também gera reflexos nas cidades. O aumento da atividade agrícola tem movimentado comércio, serviços e mercado de trabalho, criando um ambiente de crescimento econômico regional.
Além dessas culturas, outras atividades começam a surgir no horizonte produtivo da região, como o cultivo da seringueira. A expectativa é que, nos próximos anos, a matriz agrícola local se torne ainda mais diversificada, reunindo lavouras de laranja, eucalipto, cana-de-açúcar, soja, amendoim e borracha natural.
Especialistas ressaltam, no entanto, que essa nova dinâmica não representa o abandono das atividades tradicionais. A base produtiva do Estado — formada por soja, milho e pecuária bovina — continua sólida.
Para a analista técnica do Senar/MS, Lenise Castilho Monteiro, o que ocorre é um processo gradual de diversificação produtiva, no qual diferentes cadeias passam a coexistir e se complementar dentro do mesmo território.
Essa evolução já se reflete nos indicadores econômicos. O Valor Bruto da Produção agropecuária de Mato Grosso do Sul foi estimado em R$ 76,2 bilhões no fim de 2025, crescimento superior a 21% em relação ao ano anterior. Desse total, a agricultura responde por mais de 64%.
A ampliação da base florestal, o avanço da cana e a consolidação de novas culturas revelam um campo cada vez mais integrado à agroindústria e às cadeias globais de energia, alimentos e biomateriais.
No ritmo atual, Mato Grosso do Sul não apenas mantém sua força no agronegócio tradicional — ele passa a redesenhar o próprio conceito de produção rural, apostando em diversificação, inovação e sustentabilidade como motores de uma nova etapa de desenvolvimento.







