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Quando o planejamento demais vira silêncio do coração

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Pamella Schefer
5/2/2026
às
10:00

Por muito tempo, o planejamento foi visto e vendido como uma grande virtude. E, de fato, ele é. Organizar, prever, estruturar, alinhar passos… tudo isso traz segurança, clareza e direção. No trabalho terapêutico, inclusive, vemos o quanto a organização pode ser um recurso importante para pessoas que viveram muito tempo no caos, na imprevisibilidade ou na insegurança. Eu mesma sou uma pessoa extremamente organizada, gosto de planejar, de antecipar cenários, de saber onde piso. E é justamente por isso que, nos últimos tempos, tanto na minha própria vida quanto nos atendimentos, tenho refletido sobre um ponto delicado que quase nunca é dito: o excesso de planejamento pode se tornar um mecanismo de defesa. O excesso de planejamento pode, sem que a gente perceba, virar uma forma sutil de não viver.

Nos meus atendimentos, isso aparece com frequência. Pessoas altamente organizadas, funcionais, responsáveis… mas profundamente desconectadas do sentir. O planejamento excessivo, muitas vezes, não é só sobre eficiência. É sobre controle. É uma tentativa inconsciente de evitar o risco, a frustração, o imprevisível e, em muitos casos, a própria vulnerabilidade.

Às vezes, a vida está batendo na porta. O corpo dá sinais. O coração intui. O universo praticamente grita: “É agora”. Há convites, encontros, ideias, sensações e movimentos internos e externos que pedem presença, não planilha. Pedem escuta, coragem, não estratégia e controle. Mas a mente segue planejando… mais um ajuste, mais uma previsão, mais uma garantia que nunca chega.

Do ponto de vista terapêutico, o planejamento em excesso pode virar um adiamento elegante. Uma justificativa bonita para o medo. Uma forma socialmente aceita de não se expor. De não atravessar. Porque, quando tudo está perfeitamente calculado, a gente acredita que estará protegida, mas internamente paralisada. Mas a verdade é que viver nunca foi sobre proteção total. Viver é atravessar, sentir, errar, experimentar.

Existe um ponto em que o planejamento deixa de servir à vida como recurso de cuidado e passa a silenciar o corpo e o coração. Quando ele nos afasta da intuição. Quando invalida o sentir. Quando nos desconecta do corpo. Quando nos impede de dizer “sim” ao que não veio embalado em certezas. Quando impede o contato com o presente, que é justamente onde a vida acontece.

Na terapia, o convite muitas vezes não é planejar melhor, mas sentir mais. Ajudar a pessoa a diferenciar quando o planejamento está a serviço da vida e quando está a serviço do medo. Porque viver não é eliminar riscos, é desenvolver presença e recursos internos para atravessá-los.

Planejar é importante, sim. Mas escutar é essencial. Há coisas que não pedem preparo, pedem disponibilidade emocional. Há movimentos que não pedem estratégia, pedem entrega consciente. E há momentos em que o maior ato de sabedoria não é organizar o próximo passo, mas sustentar o passo que já está pedindo para ser dado e dar esse passo.

Talvez o equilíbrio esteja aí: planejar com consciência, mas viver com coragem. Organizar o caminho, sem perder o vínculo com o corpo, com o sentir e com o agora. Porque a vida não acontece no excesso de controle. Ela acontece no encontro consigo, com o outro e com o que emerge.

Por:

Pamella Schefer

Terapeuta Integrativa / Instrutora de Yoga - Criadora do Método MAS - Movimentos, Aromas e Sentir