Respire profundamente, alinhe sua coluna e, com calma e presença, imagine esta cena:
Em uma praia, o céu está em transição, nem dia, nem noite. O ar carrega aquele cheiro salgado do mar, misturado à umidade da areia fria. As ondas chegam mansas, quase tímidas, tocando a praia como quem não quer interromper o silêncio. Na areia, na beira da praia, um barco. Ele não balança no mar aberto. Está próximo, ancorado, como quem já chegou.
E ele está em chamas, pegando fogo. As chamas sobem pelo casco, a fumaça escura se mistura ao céu do entardecer, e o reflexo do fogo dança na água. Não há pessoas por perto. Não há pressa. Não há gritos. Apenas o contraste entre a calmaria do mar e a violência do fogo. O estalo da madeira queimando rompe o silêncio em pequenos sons secos. O calor do fogo contrasta com o vento frio do entardecer. A fumaça sobe densa, escura, e por instantes parece apagar o céu. O reflexo das chamas dança na água, criando uma cena que desconcerta. Tudo ao redor parece calmo, enquanto algo ali está sendo definitivamente transformado.
Agora me diga, sem pressa: que leitura você faz dessa cena? Você vê perda? Pensa em fracasso? Em algo que deu errado no final do caminho? Em sabotagem? Ou você vê coragem, ruptura, decisão, uma escolha sem retorno?
Essa cena, por si só, não explica o que aconteceu antes, nem o que acontecerá depois. Ela apenas está ali. O sentido nasce na leitura de quem observa. E é assim que também lemos a vida. É assim que funcionamos emocionalmente. Interpretamos o mundo a partir das nossas experiências, das nossas feridas, dos nossos medos, das nossas experiências, dos nossos traumas, das marcas e narrativas que carregamos. Muitas vezes, não vemos a realidade; vemos aquilo que ela ativa em nós. Por isso, desenvolver a capacidade de fazer leituras mais conscientes é um movimento profundamente terapêutico e essencial: distinguir realidade de projeção.
Agora, te convido a uma outra possibilidade de leitura dessa cena. E se eu te disser que esse barco representa alguém que chegou? Alguém que escolheu um destino, atravessou o mar, sustentou o percurso e, ao finalmente aportar, decidiu colocar fogo no próprio barco. Não por desespero. Não por impulso. Mas por compromisso.
No sentido simbólico mais profundo, não existe mais caminho de volta. Não há plano B sustentado pelo medo. Não há mais o conforto de pensar “se não der certo, eu volto”. A única possibilidade agora é fazer dar certo.
Queimar os barcos, terapeuticamente, fala sobre sustentar escolhas. Sobre não viver mais com um pé na decisão e outro na fuga. É assumir que toda escolha verdadeira exige presença, responsabilidade e permanência, mesmo quando surgem dificuldades, entraves, dúvidas, desconfortos, frustrações e ajustes necessários e inevitáveis no caminho.
Isso não significa ausência de problemas. Não significa um caminho fácil. Não significa que tudo será linear ou confortável. Significa apenas que desistir deixa de ser uma opção automática. Significa que, apesar dos percalços, não há negociação com a ideia de desistir como saída imediata.
Quantas vezes mantemos barcos intactos por medo? Apenas para garantir uma rota de escape? Não por prudência, mas por insegurança. Não por estratégia, mas por medo de sustentar o que escolhemos. Medo de falhar. Medo de se frustrar. Medo de descobrir que talvez seja possível...
Há encontros, propósitos, projetos e caminhos que só florescem, que só se constroem quando deixamos de nos abandonar no primeiro desconforto. Quando a escolha deixa de ser tentativa e passa a ser posição existencial.
Talvez esse barco em chamas não represente um fim. Talvez represente o instante exato em que alguém decide não voltar atrás de si mesmo, das escolhas e decisões genuínas do coração.
E a pergunta que fica não é sobre o fogo. É sobre você: o que, hoje, você ainda mantém intacto por medo de se comprometer com a própria existência?
Sua jornada não precisa ser solitária! O meu coração saúda o seu coração! Vamos juntos?
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